Pular para o conteúdo
Polícia

PF vê dificuldade para rastrear dinheiro ligado a filme de Bolsonaro nos EUA

Por 4 min de leitura Expresso Rio
Expresso Rio
Flávio e Eduardo Bolsonaro. Foto: reprodução
Seguir no Google News
Ouvir texto Pronto

A Polícia Federal abriu uma nova frente de investigação envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após a divulgação de mensagens, áudios e documentos relacionados ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Segundo informações reveladas pelo Intercept Brasil, a apuração agora ultrapassa o território brasileiro e pode exigir cooperação formal com autoridades dos Estados Unidos para rastrear movimentações financeiras ligadas a fundos e empresas sediados no exterior.

O principal desafio para os investigadores é comprovar eventual contrapartida política, favorecimento concreto ou uso indevido da função pública em benefício do banqueiro. Especialistas em Direito Penal ouvidos por diferentes veículos afirmam que esse é um elemento considerado essencial para eventual enquadramento por corrupção.

De acordo com as informações divulgadas, mensagens atribuídas a Flávio Bolsonaro mostram cobranças relacionadas a repasses financeiros para a conclusão do longa-metragem.

Documentos apontariam previsão de aportes de aproximadamente R$ 134 milhões destinados à produção audiovisual.

Parte dos recursos, segundo a apuração, teria sido transferida pela Entre Investimentos, empresa ligada a Daniel Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, estrutura sediada no Texas e administrada por Paulo Calixto, advogado ligado ao deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

A presença de empresas e fundos nos Estados Unidos passou a ser considerada um dos pontos mais sensíveis da investigação.

Isso porque o rastreamento completo das movimentações depende de mecanismos internacionais de cooperação jurídica, incluindo pedidos formais entre autoridades brasileiras e norte-americanas.

O advogado Carlos Lube, mestre em Direito Penal Econômico pela Universidade Cândido Mendes, afirmou em entrevista ao jornal O Globo que operações internacionais costumam dificultar investigações financeiras pela necessidade de enquadramentos específicos em acordos de cooperação.

Segundo ele, mensagens, relações políticas e movimentações financeiras, isoladamente, não seriam suficientes para sustentar acusações automáticas de corrupção.

“Há indícios de uma relação, que pode ter relevância penal, mas só fato de enviar dinheiro a um filme não é um crime. Se só ficar nesse plano, pode ser que cheguemos à conclusão de que não houve crime. Mas se tiver contrapartida do senador, pode chegar em corrupção”, afirmou o especialista.

A Polícia Federal também avalia se parte dos recursos relacionados ao filme poderia ter sido utilizada para custear despesas ligadas à permanência de Eduardo Bolsonaro fora do Brasil.

Expresso Rio
Jim Caviezel como Jair Bolsonaro em “Dark Horse”. Foto: reprodução

Segundo especialistas ouvidos na apuração, será necessário diferenciar eventual financiamento privado de atividades audiovisuais de possíveis mecanismos utilizados para ocultar movimentações financeiras indevidas.

Outro ponto que passou a chamar atenção dos investigadores é o tamanho do aporte financeiro relacionado ao projeto.

Para André Perecmanis, professor de Direito Penal Econômico da PUC-Rio, o montante citado na investigação estaria muito acima do padrão normalmente visto no mercado audiovisual brasileiro.

“É um aporte financeiro desproporcional. Um investimento de R$ 134 milhões em um filme extrapola qualquer produção cinematográfica brasileira e o recebimento lá fora, quando o filme é brasileiro. Isso tudo pode indicar, por exemplo, lavagem de dinheiro”, afirmou.

A investigação envolvendo Flávio Bolsonaro é tratada internamente de maneira diferente da apuração relacionada ao senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Segundo informações já divulgadas, investigadores teriam encontrado indícios mais objetivos de relação entre pagamentos ligados ao grupo de Vorcaro e iniciativas legislativas favoráveis ao Banco Master no caso envolvendo Ciro.

No caso de Flávio Bolsonaro, porém, investigadores ainda buscam provas consideradas concretas de eventual contrapartida política.

A expectativa é que a investigação avance para pedidos formais de compartilhamento de dados financeiros com autoridades norte-americanas.

Sem acesso completo às movimentações realizadas nos Estados Unidos, investigadores avaliam que pode haver dificuldade para identificar destinatários finais dos recursos e compreender toda a estrutura financeira utilizada no projeto.

O caso também ampliou o desgaste político em torno do senador Flávio Bolsonaro e trouxe novos questionamentos sobre relações entre agentes políticos, financiamento privado e estruturas internacionais de investimento.

Até o momento, não há denúncia criminal formal apresentada relacionada ao caso.

A tendência é que os próximos passos da investigação dependam da análise técnica dos documentos financeiros, da cooperação internacional e de eventuais novas provas que possam surgir durante a apuração.

Leia também:

Ouvir texto Pronto