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Morre Celso Lungaretti, jornalista que combateu a ditadura e rechaçou acusação sobre a VPR

Por 4 min de leitura Expresso Rio
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Morre Celso Lungaretti, jornalista que combateu a ditadura e rechaçou acusação sobre a VPR
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Celso Lungaretti na época da militância política e capa do livro Náufrago da Utopia
Celso Lungaretti na época da militância política e capa do livro autobiográfico “Náufrago da Utopia”. Foto: Reprodução

O jornalista Celso Lungaretti, ex-militante da luta armada contra a ditadura militar, morreu neste sábado (18), aos 75 anos, em São Paulo. Sua trajetória reuniu resistência ao regime, atuação na imprensa, defesa dos direitos humanos e uma longa batalha para contestar a acusação de que teria delatado um acampamento da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

Lungaretti estava internado havia 21 dias no HCor, na capital paulista, após quebrar o fêmur direito em um acidente doméstico. Ele passou por uma cirurgia corretiva no início de julho, mas complicações pós-operatórias agravaram seu estado de saúde.

Nascido em São Paulo, ingressou ainda jovem no movimento estudantil e na resistência ao regime militar. Entrou para a VPR em 1969, aos 18 anos, junto de seis amigos. Dois deles foram assassinados antes de completar dois anos de militância e os outros cinco acabaram presos.

Lungaretti foi capturado em 16 de abril de 1970 e permaneceu 75 dias sob a custódia do Exército. Em entrevista ao DCM em 2024, relatou que sofreu sessões de pau de arara, choques elétricos e espancamentos. “No meu terceiro dia preso, depois de ter passado por várias sessões de pau de arara, choques e espancamentos, o médico segredou algo ao ouvido do oficial, que ordenou que não me torturassem mais. Talvez eu estivesse próximo de morrer”, contou.

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Celso Lungaretti frente a um tribunal de exceção na ditadura

As agressões deixaram sequelas permanentes. Um tapa dado pelo cabo Marco Antônio Povorelli rompeu seu tímpano e provocou a perda da audição do ouvido direito. Lungaretti passou por três cirurgias e sofreu durante anos com crises de tontura e labirintite. Ele também descreveu consequências emocionais após deixar a prisão, como comportamento agressivo e a busca constante por situações de risco.

Durante o período em que esteve preso, Lungaretti foi obrigado a escrever manifestos e conceder entrevistas renegando sua militância e condenando a resistência armada. “Jamais disparei um tiro, nunca feri ninguém, mas os cartazes de ‘procurados’ me acusavam de ter roubado e assassinado vários pais de família”, afirmou ao DCM.

Acusação sobre a VPR marcou sua vida

Uma das maiores disputas de sua biografia envolveu a acusação de que ele teria revelado aos militares a localização do campo de treinamento da VPR no Vale do Ribeira, comandado por Carlos Lamarca. A versão, repetida por antigos militantes e em parte da literatura sobre a ditadura, fez com que Lungaretti fosse tratado durante décadas como traidor.

O jornalista sempre negou a acusação. Sustentava que, sob tortura, falou sobre uma área de treinamento já abandonada havia dois meses e que não conhecia o acampamento efetivamente cercado pelo Exército durante a Operação Registro. Segundo ele, seu nome foi usado como “bode expiatório” para preservar dirigentes do grupo.

Em 2004, o historiador Jacob Gorender reconheceu publicamente que Lungaretti havia fornecido informações apenas sobre a área desativada e não sabia onde estavam Lamarca e os demais integrantes da VPR. A revisão ocorreu após a revelação de um relatório militar secreto e foi recebida pelo jornalista como uma reparação tardia a uma das maiores injustiças de sua vida.

Formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Lungaretti construiu carreira no jornalismo e manteve sua militância em defesa dos direitos humanos e do pensamento crítico. Em 2005, publicou “Náufrago da Utopia: vencer ou morrer na guerrilha aos 18 anos”, relato autobiográfico sobre a resistência, a prisão e a tortura. O título também batizou o blog que escreveu por quase duas décadas.

Nos últimos anos, trabalhava em “Náufrago da Utopia 2”, já concluído e em fase de edição. Também citava entre suas principais batalhas a luta pela própria anistia e a campanha pela libertação do escritor italiano Cesare Battisti. Lungaretti deixa a esposa, Nadja, e as filhas Luana e Laura. O velório será realizado na terça-feira (21), no Cemitério São Pedro, na Zona Leste de São Paulo.

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