Um mês após os terremotos que devastaram regiões da Venezuela, milhares de famílias continuam vivendo uma rotina marcada pela incerteza. Sem uma estimativa oficial sobre o número de desaparecidos, .
Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, a ausência de informações oficiais tem ampliado o sofrimento de quem ainda espera respostas. Enquanto o governo venezuelano mantém o número de mortos em cerca de 5.400, plataformas independentes apontam que dezenas de milhares de pessoas permanecem desaparecidas, indicando que a dimensão da tragédia pode ser muito maior do que a reconhecida oficialmente.
Entre essas famílias está a de Jhonattan Lamus, desaparecido desde o dia dos terremotos. Seu irmão, Yeison, relata que o momento mais difícil tem sido lidar diariamente com a esperança do pai, de 86 anos.
“Há muita ansiedade, muito medo, uma tristeza de não saber qual resposta dar”, diz o educador, que ainda busca o irmão Jhonattan em necrotérios, hospitais, clínicas e albergues. “É lamentável.”
Todos os dias, o idoso acende uma vela, faz orações e espera que o filho volte para casa.
Milhares de desaparecidos sem resposta oficial
Embora milhares de registros de desaparecimento já tenham sido formalizados por familiares junto ao Corpo de Investigação Penal e Criminalística, o governo venezuelano não divulga qualquer estimativa oficial sobre quantas pessoas continuam sem paradeiro conhecido.
Projetos independentes criados para auxiliar nas buscas apresentam números expressivos. As plataformas Venezuela Te Busca, Venezuela Reporta e Desaparecidos reúnem aproximadamente 17 mil, 40 mil e 29,5 mil registros, respectivamente.
Esses bancos de dados incluem pessoas que podem estar internadas sem identificação, acolhidas em abrigos temporários, desorientadas após o desastre ou ainda soterradas sob os escombros das áreas mais atingidas.
Caso parte significativa desses desaparecidos seja posteriormente contabilizada entre as vítimas fatais, o desastre poderá figurar entre os terremotos mais letais da história recente da América Latina. Atualmente, o terremoto do Haiti, em 2010, permanece como o mais mortal da região, com cerca de 316 mil mortos. Em seguida aparece o terremoto da Cidade do México, em 1985, que provocou pelo menos 9.500 mortes.
Apesar das dúvidas sobre a dimensão da tragédia, o Ministério para a Comunicação e Informação da Venezuela não respondeu aos questionamentos sobre a ausência de um levantamento oficial de desaparecidos.
Na semana passada, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, afirmou que falar em desaparecidos seria especulação.
Famílias denunciam abandono e medo de cobrar respostas
A falta de transparência das autoridades também alimenta o receio de familiares em cobrar providências do governo.
“Nós temos muito medo de exigir uma resposta das autoridades, porque aqui isso já não funciona”, afirma Yeison.
“Quando alguém se pronuncia, pode haver retaliação contra a família, e é isso que vivemos tristemente como venezuelanos. Eles seguram o poder com unhas e dentes.”
Segundo ele, além da dor causada pelo desaparecimento do irmão, existe o temor de sofrer represálias por criticar a atuação das autoridades.
Deportado dos Estados Unidos desapareceu durante tragédia
Jhonattan Lamus integrava um grupo de mais de 160 venezuelanos deportados pelos Estados Unidos justamente no dia em que os terremotos atingiram o país.
Os deportados estavam alojados em um edifício na região costeira de La Guaira, que desabou durante os tremores. Até hoje não existe confirmação oficial sobre quantos sobreviveram ou morreram no local.
De acordo com a família, agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) informaram que Jhonattan possivelmente conseguiu sair do prédio antes do desabamento, mas teria deixado a área desorientado e estaria desaparecido.
Ao longo das buscas, os parentes afirmam ainda ter recebido duas identificações equivocadas.
“O primeiro cadáver era o de uma mulher. O segundo, o de um homem que tinha a arcada dentária completa, e sabemos que meu irmão não tinha quatro dentes. Eles insistiam que era ele, mas não aceitamos.”
Ausência do Estado amplia sofrimento das vítimas
A sensação de abandono também é compartilhada por Daniel Medina, venezuelano-brasileiro que continua procurando o pai, Félix Tovar.
Ele afirma que saber da existência de milhares de famílias vivendo o mesmo drama ajuda a dividir a dor, mas reforça a percepção de falha do Estado.
“Ainda assim, tudo só nos remete a uma ausência muito grande do Estado, que vira as costas para o povo. Queríamos uma resposta estatal mais contundente, uma resposta digna”, diz ele.
A palavra “dignidade” tornou-se recorrente entre parentes das vítimas, que afirmam não terem recebido o apoio necessário para localizar seus familiares ou concluir o processo de despedida.
Félix Tovar estava hospedado em uma pousada na região de La Guaira quando ocorreram os terremotos. Durante três semanas, familiares concentraram as buscas nos escombros de uma padaria, onde acreditavam que ele pudesse estar. Equipes brasileiras de resgate participaram das operações, mas nenhum corpo foi encontrado.
A única pista concreta continua sendo um sinal de telefone celular indicando que Félix esteve na região atingida.
Entre a esperança e a necessidade de seguir em frente
Sem respostas oficiais, muitas famílias vivem um impasse emocional. Enquanto mantêm a esperança de encontrar seus parentes vivos em algum hospital ou abrigo, também começam a enfrentar o difícil processo de aceitar a possibilidade da morte sem um corpo ou confirmação oficial.
Daniel Medina reconhece que essa decisão ainda parece distante, mas sabe que um dia será inevitável.
“Mantemos a procura porque a esperança que fica é a de que ele possa estar inconsciente em algum hospital. Mas, se isso não acontecer, e ainda não sabemos por quanto tempo esperar, em algum momento precisaremos fazer um encerramento ou um ritual para a vida do meu pai”, diz Daniel, que mora na Colômbia.
Para milhares de venezuelanos, o terremoto ainda não terminou. Enquanto persistirem as dúvidas sobre o paradeiro de seus familiares, a tragédia continuará sendo vivida diariamente, marcada pela esperança, pela ausência de respostas e pela busca por um desfecho que permita transformar a incerteza em luto.




