Pular para o conteúdo
Entretenimento

Sakamoto: Artista e jornalista que anunciam bet jogam imagem no lixo, aponta pesquisa

Por 3 min de leitura Expresso Rio
sakamoto:-artista-e-jornalista-que-anunciam-bet-jogam-imagem-no-lixo,-aponta-pesquisa
Sakamoto: Artista e jornalista que anunciam bet jogam imagem no lixo, aponta pesquisa
Seguir no Google News
Ouvir texto Pronto
Expresso Rio

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Há uma conta que artistas, atletas, jornalistas e influenciadores deveriam fazer antes de emprestar o rosto, a voz e a credibilidade a uma casa de apostas. Não aquela que calcula quantos zeros haverá no contrato, mas a que mede quanto da própria reputação será queimado para receber o dinheiro.

Pesquisa More in Common/Ipsos-Ipec mostra que 40% dos brasileiros não confiam ou passam a confiar menos em quem anuncia bets. Outros 51% têm uma visão negativa dessas pessoas, enquanto míseros 10% manifestam uma avaliação positiva. Ou seja, o cachê pode ser gordo, mas vem acompanhado de uma injeção de Mounjaro na credibilidade. A margem de erro é de dois pontos.

Nas respostas espontâneas, apareceram definições como “egoísta”, “ganancioso”, “manipulador”, “irresponsável” e “sem caráter”. Não é pouca coisa. O público percebe que aquela pessoa sorridente não está oferecendo apenas entretenimento, mas usando a confiança acumulada ao longo de anos para empurrar seguidores em direção a um negócio no qual a banca ganha justamente quando eles perdem. E que vem gerando uma crise de saúde pública no país, com o endividamento levando ao adoecimento, à erosão familiar e até ao suicídio.

É o grande trade off das bets. O influenciador recebe dinheiro agora, mas desvaloriza o ativo que lhe permite ganhar dinheiro amanhã: a própria imagem. Troca reputação de longo prazo por receita imediata, como alguém que vende as telhas da casa para pagar uma balada e depois se espanta quando começa a chover.

O prejuízo é ainda maior entre os públicos considerados mais valiosos pelo mercado publicitário. Entre quem tem ensino superior, 48% não confiam ou passam a confiar menos em quem promove apostas. Entre as pessoas com renda familiar superior a cinco salários mínimos, o índice chega a 46%. Nesse mesmo grupo, 59% apresentam avaliações negativas sobre os garotos-propaganda das bets.

Expresso Rio
Pessoa jogando na “bet”. Foto: Divulgação

Em outras palavras, quanto mais dinheiro entra pelo contrato, maior pode ser a erosão do público que sustenta contratos futuros. A celebridade imagina estar monetizando sua influência, mas talvez esteja apenas liquidando o estoque.

A pesquisa trata diretamente de influenciadores, artistas e atletas, mas jornalistas que viram mercadores de apostas entram no mesmo balaio. Com um agravante: a matéria-prima do jornalismo é a confiança. Quem usa a autoridade construída informando o público para convencê-lo a apostar transforma credibilidade jornalística em cupom promocional.

Não adianta argumentar que se trata apenas de um trabalho como qualquer outro ou que é ordem do patrão fazer a propaganda. As bets lucram com perdas repetidas, alcançam pessoas vulneráveis e se apresentam como oportunidade de renda para uma população que frequentemente aposta tentando resolver emergências financeiras.

O artista ou jornalista pode até repetir o aviso de “jogue com responsabilidade”, mas esse rodapé funciona como o “beba com moderação” pronunciado enquanto alguém enche o copo do público. De novo, e de novo, e de novo.

Também não basta afirmar que ninguém é obrigado a apostar. Ninguém é obrigado a comprar quase nada que a publicidade oferece. A razão para empresas gastarem fortunas com personalidades é justamente sua capacidade de influenciar escolhas. Aceitar o cachê e, depois, negar a influência é querer receber pelo poder de convencimento sem assumir responsabilidade por ele.

Bets podem comprar horário na televisão, espaço em estádio, publicação em rede social e sorriso de celebridade. O que elas não conseguem garantir é que a confiança do público sobreviva à propaganda. E, para artistas e jornalistas, descobrir que a imagem foi vendida barato costuma acontecer quando ninguém mais quer comprá-la.

Ouvir texto Pronto